A escrita e a oralidade em sala de aula

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Cada vez que falamos, criamos de novo, e o que criamos é uma função da nossa linguagem e da nossa personalidade.  “John Firth”

No meio linguístico, nas últimas décadas, tornou-se mais expressivo o número de trabalhos que priorizam a linguagem oral. No que se refere às reflexões relativas à oralidade e sua relação com a escrita, Fávero expressa que:

Sociólogos, educadores, psicólogos e lingüistas têm se debruçado sobre o assunto e, diante de tanto interesse, era de se esperar que as características da fala e da escrita já tivessem sido analisadas exaustivamente, porém, se há muitos trabalhos, a concordância entre eles é pequena. A escrita tem sido vista como de estrutura complexa, formal e abstrata, enquanto a fala, de estrutura simples ou desestruturada, informal, concreta e dependente do contexto (FÁVERO et al., 1999, p. 9).

Manifestações da língua oral e escrita são manifestações da língua; portanto, para se entender a língua na sua totalidade, precisa-se estudar o oral também e não só o escrito. Fávero (1999) diz que apesar de algumas diferenças em determinados componentes da linguagem oral e escrita, é preciso lembrar que se está trabalhando com duas modalidades pertencentes ao mesmo sistema linguístico, ou seja, o sistema da Língua Portuguesa, com ênfase diferenciada em determinados componentes desse sistema.

Dessa forma, essa visão dicotômica entre escrita e oralidade, em que a primeira ocupa lugar de supremacia sobre a segunda, é um grande equívoco, uma vez que, a escrita e a oralidade constituem práticas e usos da língua, que por sua vez, possuem características próprias, porém essas características, não as tornam dicotômicas: “ambas permitem a construção de textos coesos e coerentes, ambas permitem a elaboração de raciocínios abstratos e exposições formais e informais, variações estilísticas, sociais, dialetais e assim por diante”. (Marcuschi, 2000, p. 17)

Há, na verdade, um grande acordo de justaposição entre ambas. Alguns tipos de fala podem ser escritos e alguns tipos de escrita podem ser falados. Assim, não se pode dizer que a língua escrita é formal e a falada informal. Um bilhete, por exemplo, é língua escrita e, ao mesmo tempo, é informal. Nesse sentido, Marcuschiexemplifica com as conversas em tempo real, pelainternet, produzidas nos famosos bate-papos, argumentando que, nos mesmos,

[…] temos um modo de comunicação com características típicas da oralidade e da escrita, constituindo-se, esse gênero comunicativo, como um texto misto, situado no entrecruzamento de fala e escrita. Assim, algumas das propriedades até há pouco atribuídas com exclusividade à fala, tal como a simultaneidade temporal, já são tecnologicamente possíveis na prática da escrita à distância, com o uso do computador. Esse “escrever” tem até uma designação própria: “teclar”; tal é a consciência da “novidade”. No meu entender a mudança mais notável aqui não diz respeito às formas textuais em si, mas sim à nossa relação com a escrita. […] é uma nova forma de se relacionarmos com a escrita, mas não propriamente uma nova forma de escrita (MARCUSCHI, 2000, p. 18).

Assim, existe um continuum¹  entre a língua falada e a escrita, que vai de um nível menos formal até o mais formal. Ao longo desse continuum situam-se diversos tipos de práticas sociais que fazem os usos dessas duas modalidades desdobrarem-se ao infinito, gerando os mais diversos formatos textuais.

Uma das características mais importantes da fala é que ela é, a um só tempo, processo e produto.  Ou seja, decorre de uma interação face a face, não há consulta a outros textos (como a intertextualidade, num texto escrito, por exemplo). Em suma, é um processo essencialmente dinâmico. O texto escrito, por sua vez, permite a interação à distância, a criação individual (do autor) e a possibilidade de revisão que não há no texto falado: o que foi dito, foi dito, não há como apagar.  A produção escrita tende a esconder seu processo de criação, mostrando apenas o resultado.

Pode-se dizer, ainda, que a fala tem mais traços de fragmentação e a escrita de integração. No entanto, não se pode afirmar que haja diferenças rígidas entre o texto escrito e o falado. Essas diferenças vão decorrer das condições de produção, ou seja, da situação, se há mais ou menos formalidade, etc.

Em seu livro Oralidade e Escrita (1999), Fávero esclarece que a gramática compreende uma relação entre fala e escrita decorrente de um modelo preconceituoso em que, muitas vezes, a forma falada é vista como errada. A escola, muitas vezes, de maneira inadequada, tentou corrigir a fala “errada” dos alunos, uma vez que não coincidia com a variedade linguística de maior prestígio social, na esperança de evitar que escrevessem errado, sem perceber, que com isso, só reforçou o preconceito contra aqueles que falam diferente da variedade de maior prestígio. Mas Guedes, enfaticamente, esclarece que a língua escrita não é melhor do que a falada

[…] por isso, não precisamos aderir aos valores expressos por ela. Basta que consideremos que a língua escrita, tal como a falada, é um bem público, à disposição de quem nela quiser expressar o que sentir necessidade; por isso, dominá-la proporciona a possibilidade de confrontar, num diálogo em condições de igualdade, nossa íntima realidade pessoal e nossa próxima realidade social constituídas pelo dialeto que falamos comaoutra realidade – organizada pela língua escrita–: a do grande mundo lá fora (GUEDES, 2004, p. 58).

A oralidade deve conquistar um espaço privilegiado nas aulas de Língua Portuguesa. Essas atividades devem ser orientadas e exploradas pelo professor como forma de avaliar e desenvolver as habilidades de FALAR < – > OUVIR, o que implicará, positivamente, nos demais objetos do ensino da Língua: LER < – > ESCREVER.

No entanto, expressar-se oralmente é algo que requer confiança em si mesmo, o que só se conquista em ambientes favoráveis à manifestação do que se pensa, do que se sente, do que se é. Assim, a escola deve constituir-se num ambiente que respeite e acolha a vez e a voz, a diferença e a diversidade para o desenvolvimento da capacidade de expressão oral do aluno. Mas, também depende da escola, ensinar ao aluno os diferentes usos da língua adequados as mais diversas situações comunicativas, pois se deve oferecer instrumentos para o aluno enfrentar situações em que não será aceito se reproduzir as formas de expressão próprias de sua comunidade. “É preciso, portanto, ensinar-lhe a utilizar adequadamente a linguagem em instâncias públicas, a fazer uso da língua oral de forma cada vez mais competente” (PCNs, 1997, p. 49).

Fávero (1999) apresenta uma sugestão de como trabalhar a escrita e a oralidade. Diz que o professor, ao trabalhar com textos, pode iniciar a atividade com textos orais produzidos pelos próprios alunos, mostrar como esses textos se estruturam, quais as suas especificidades, qual a sua unidade de construção. Posteriormente, utilizando os mesmos temas tratados no exercício oral, deve desenvolver atividades escritas buscando evidenciar como se estrutura o texto escrito, qual a sua unidade constitutiva, como ela deve ser tecida.

Assim, se o professor organiza a aula com base nos textos dos próprios alunos, estes passarão de simples expectadores para participantes das atividades linguísticas desenvolvidas em sala de aula.Os PCNs (1997) são enfáticos em declarar que é função da escola ensinar o aluno a utilizar a linguagem oral

[…] no planejamento e realização de apresentações públicas: realização de entrevistas, debates, seminários, apresentações teatrais, etc. Trata-se de propor situações didáticas nas quais essas atividades façam sentido de fato, pois é descabido treinar um nível mais formal da fala, tomando como mais apropriado para todas as situações. A aprendizagem de procedimentos apropriados de fala e de escuta, em textos públicos, dificilmente ocorrerá se a escola não tomar para si a tarefa de promovê-la (PCNs, 1997, p.32).

Desta forma, é relevante o fato de que com o ensino/aprendizagem de diferentes padrões de fala e escrita, o que se deseja não é levar os alunos a falarem certo, mas sim lhes permitir escolher a forma da fala que deve ser utilizada em situações comunicativas distintas, adequando os recursos expressivos à variedade de língua e o estilo.

Ainda, com relação à importância atribuída ao ensino da linguagem oral na escola, os PCNs (1997) colocam ao lado das atividades de leitura e produção de textos escritos, a escuta e a produção de textos orais como forma de atender às diversas demandas sociais, além de responder a diferentes propósitos comunicativos e expressivos e, ainda, considerar as diferentes condições de produção do discurso. Consequentemente, o aluno seria levado a conhecer e valorizar outras variedades linguísticas, inclusive a sua.

¹A esse respeito, ler Da fala para a escrita: atividades de retextualização, de Luiz Antônio Marcuschi.São Paulo: Cortez, 2000

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais:Língua Portuguesa.Brasília, 1997.
  • FÁVERO, Leonor Lopes; ANDRADE, Maria Lúcia & AQUINO, Zilda. Oralidade e escrita – perspectivas para o ensino de língua materna. São Paulo: Cortez, 1999.
  • GUEDES, Paulo Coimbra. Da redação escolar ao texto:um manual de redação.3. ed.Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004.
  • MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita:atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2000.

 

Blog do Colégio Tiradentes Brigada Militar Passo Fundo. 06/09/12 (Fonte)