Para Viviane Mosé, educação é pensamento, não textos decorados

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Educadora Viviane Mosé, psicóloga e doutora em filosofia, acredita que a mudança trazida pela internet se compara ao renascimento. E se trata de momento perigoso

Viviane Mosé, 53, é educadora, psicóloga, palestrante, consultora. É mãe. Imersa no mundo do conhecimento desde a infância, sabe o gosto que o descobrir traz à mente e à alma. Mas, só serve se o aprender for alegre, essencial e, acima de tudo, livre. “Cada um de nós tem um talento”, acredita.

E com ele somos únicos e podemos ganhar o mundo. Viviane é crítica e se guia pelo que a filosofia e a experiência já a ensinaram. Quer um mundo onde jovens questionem, amem e sejam amados. Exige que a humanidade saiba que educar os filhos — e os que não são filhos — é a única saída para vencer o que mais os assola: a violência. É preciso atenção e mudança no educar. Digna da mudança que a tecnologia provocou na vida.

O POVO – Como foi sua entrada no mundo da educação?

VIVIANE MOSÉ – Meus pais não tinham estudo, então o que era fundamental para esse casal? Que os filhos estudassem. Meu pai fez supletivo e depois já era professor de cursinho. Como começou a estudar velho, ele se empolgava. Todo dia a gente discutia um tema na mesa do almoço. Biologia, literatura… como sempre fui apaixonada pelo meu pai, sempre quis agradá-lo, cresci voltada pra isso. Entrei na universidade com 17 anos, para Psicologia, e vi que o clima não era igual ao do meu pai. Estava acostumada a tratar o conhecimento com paixão e alegria. Aí eu entrei no movimento estudantil e comecei a discutir educação ali. Nunca concordei com a abstração excessiva, com o poder autoritário.

OP – Vemos esse contexto de incentivo ao estudo dos filhos muito no Interior. O que os move?

VIVIANE – Alguns pais querem o melhor pros filhos e estou falando de uma relação muito simples. Mas, há 20 anos, meu pai era uma exceção, as pessoas não tinham a noção de que a educação muda a vida delas. Hoje todo mundo sabe. O problema hoje não são as famílias, mas os professores. Não que eles tenham culpa, mas é porque eles estão no meio de uma encruzilhada: aprenderam em um modelo velho e precisam ensinar de um modo novo. Temos de ajudá-los a sair desse impasse.OP – E em sua formação, hoje, os professores continuam aprendendo no modelo velho?

VIVIANE – Sim, tem uma cosia que causa muita polêmica, que me tira trabalho, mas eu não me incomodo. O centro do problema da educação brasileira é a universidade, não é o ensino básico. O ensino básico vai muito bem, obrigado. A gente está ousando, fazendo metodologia nova. E a universidade não. Ela continua velha, repetindo as mesmas formas. A gente vai bem, vai bem e quando chega na ponta dá tudo errado. É quase uma heresia falar para pessoas muito qualificadas intelectualmente que você quer relacionar educação com a vida. Elas não acreditam nisso, acham que a educação é um abstrato. Eles acham que a gente está querendo diminuir o valor do conteúdo e do conceito para ensinar práticas. A questão é que não existe diferença entre prática e teoria, existe só a vida.

OP – Você com 17 anos já estava na universidade. Hoje, muitos jovens passam anos sem saber o que querem fazer…

VIVIANE – Minha formação foi muito pautada pela necessidade, não por escolhas. A gente escolhe o que tem na mão, que é o seu próprio talento. É isso que eu gostaria que os jovens fizessem, que experimentassem a vida. Enquanto você experimenta, sabe o que faz bem, o que faz mal. Eu acredito que a formação profissional precisa ser pautada pela sua necessidade. O que você precisa pra viver? Essa é a pergunta a ser feita.OP – Temos filhos, pais, famílias diferentes hoje. Como a educação pode acompanhar essa mudança?

VIVIANE – Temos uma mudança muito significativa acontecendo no mundo e ela precisa ser lida e pensada. Mas você só pode ler o mundo, como dizia Paulo Freire, se tiver uma educação viva, nova e ousada. Então, se você só repete o que está nos livros, não vai ler o mundo. Você vai ler o passado. Quando a gente lê a realidade, vê que o modo de gestão da sociedade mudou. Você tinha uma pirâmide e poucos chegavam ao alto. Essa pirâmide caiu por terra com a Internet. Não caiu com revolução ou com greve, caiu com a tecnologia. Assim como o professor que não é mais dono de sala de aula, porque a criança tem acesso ao Google. Assim como o pai não é mais dono, porque a mãe saiu pra trabalhar. Assim como o presidente de um país não é mais dono, porque a gente sabe muito bem que são mil articulações que acontecem por fora.

OP – Como estamos vivendo essa transição?

VIVIANE – Essa transição é muito perigosa. A violência, o terrorismo… a ordem antiga acabou, então quem quer sair do escuro vai sair. Nunca tivemos tanto ódio, tanta intolerância. Acho que uma mudança como essa a gente só viveu no Renascimento. Como é ser mãe hoje? Como é ter 202 mil amigos, são amigos ou não? O que é ser homem e mulher hoje? Nós estamos passando por um momento de desintegração de valores, de forças, de modelos de sociedade, de modelos de gestão. É ruim? É. Mas é bom. É hora da ousadia, da ética…. Eu dou uma dica: nesse momento não é hora de arrumar culpado. OP – Mas, quando falamos em educação como política pública, não temos culpado, mas temos responsáveis.

VIVIANE – Você está certa, mas a questão é como lidar. O modelo antigo piramidal é o da culpa. Você fica com raiva porque seu pai manda em você, mas se sua vida der errado a culpa é do seu pai que não te deu a liberdade. Então, é bom ter a quem culpar. Quando você tem uma Secretaria de Educação, encontra muitas pessoas equivocadas, encaminhando as coisas de forma incorreta ou não competente. Só que a única maneira de resolver isso é através do acordo e não do conflito.

OP – A importância do diálogo é um dos fundamentos da técnica da gestão de si, criada por você. Como funciona?

VIVIANE – Exatamente. Antes não precisava de gestão de si, era assim: eu sou racional, penso usando a lógica e concluo usando o melhor pra mim. Há 15 anos, você via o que queria e escolhia o que o mercado oferecia. Hoje, isso não existe. Para você ter um bom lugar no mercado, a primeira coisa é perguntar: quem eu sou? O que me importa? Qual a minha relação com a vida? Aí você descobre o que você tem que ninguém tem, o que é próprio da sua pessoa, o que em você brilha. Todo mundo brilha de alguma maneira. É isso que faz a roda girar. Ninguém vai competir com você.OP – Por isso é necessário que os professores ensinem mais do que matérias, para que os jovens se descubram?

VIVIANE – Eu vou te dar uma frase da Adélia Prado, que cai nisso muito bem e eu adoro: “Eu não quero a faca nem o queijo, eu quero a fome”. Nós damos para o aluno a faca e o queijo, mas tiramos a fome. Se um professor der fome, o aluno acha a faca e o queijo. Mas, o professor pode dar a fome e ainda indicar a faca e o queijo. Essa é a inversão na educação. Não dê algo que preencha a angústia do aluno, não dê modelos para esse aluno seguir, não dê caminhos pra esse aluno trilhar. Dê a ele fome e ética e mostre que ele é um grão de areia se no mundo e que precisa do contexto. Se você tem fome e entende que pra existir precisa do contexto, você tem ética. Isso é a sociedade que a gente precisa, a educação que a gente precisa.

OP – E dar fome ao aluno reflete em várias questões, como a discussão de gênero nas escolas, barradas pelo Congresso.

VIVIANE – A questão do gênero não precisa da autorização de ninguém para ser discutida. Isso me incomoda. O professor não precisa que gênero esteja escrito no currículo para discutir. Gênero é a base do que somos. No entanto, tem um probleminha delicado, que eu vou arrumar uma polêmica mas que precisa ser falado. Quando as lutas no mundo começam a existir, elas são altamente necessárias, mas elas correm o risco de cair no seu oposto. Nós, hoje, vivemos um problema de gênero que tem de ser discutido, que é: o excesso de valorização do feminino na luta pelo feminino. Não dá pra diminuir os homens dessa maneira. OP – A qual discussão você se refere?

VIVIANE – Como as mulheres sofreram muito na nossa sociedade — e ainda sofrem, e muito, a gente não pode vitimizar as mulheres. Porque isso não as ajuda. Eu digo isso porque minha mãe era feminista, meu pai era feminista. Eu nasci com um pai dizendo: “Não se submeta a homem nenhum”. E eu fui vítima do feminismo dos meus pais, porque só aos 40 anos eu tive coragem de ter um filho e casar. Eu fui criada pra não ter filho e não casar.

OP – E como acabar com o fato de que as mulheres ainda são vítimas?

VIVIANE – As mulheres são vítimas de duas coisas bem graves no Brasil: violência sexual, não só de estupro, mas as mulheres não têm direito a sua sexualidade livre. Outra violência que as mulheres passam, além da física, tem a violência financeira. Porque hoje, no Brasil, a mulher ganha 30% menos do que o homem, no mesmo cargo. Não por preconceito, mas por uma questão financeira. Ela ganha menos para ter direito a ter um filho. E para isso, a gente tem que localizar as nossas lutas e resolver de forma objetiva esses problemas. Colocar a mulher em questão de igualdade no mercado de trabalho e na sexualidade. Isso é uma coisa. Mas, tornar isso um conceito abstrato de que a mulher é sempre vítima, não. As mulheres são poderosíssimas, são autoritárias, controladoras, e eu não acho, como se dizia antigamente, que o mundo guiado por mulheres seria melhor. Não é verdade. O mundo guiado por pessoas éticas é melhor, independente se é homem ou mulher.

OP – Sobre o ensino, o que está errado quando se fala em conteúdo?

VIVIANE – Em tudo é ultrapassado. Você tem escolas que lidam muito bem com o relacionamento, mas não têm conteúdo. Você tem escolas que têm conteúdo e não lidam com relacionamento. O desafio hoje é ter uma escola com altíssimo conteúdo, porque é fundamental ter conteúdo sofisticado, elaborado, língua materna, língua estrangeira… mas que estejam vinculados à vida de cada aluno. Isso é pessoal, a educação tem que ser um a um. Preciso saber qual a classe social dessas pessoas, qual a vida familiar, onde essa pessoa mora, quais os conflitos dela, qual a realidade que ela vive. Quem é? E além disso. O que cada aluno meu brilha. O gestor da educação, então, dá o suporte ético e de método de pesquisa. Eu tenho obrigação de cuidar disso. Isso é educação contemporânea e é muito raro quem faz.

OP – O programa Tutorial, idealizado por você, tenta trabalhar exatamente isso.

VIVIANE – Isso existe em alguns países e aqui no Brasil algumas escolas estão fazendo. Imagina uma escola pública, onde você tem uma média de 13 alunos que serão atendidos por um professor, além da aula do conteúdo. O professor se reúne com eles durante 10 minutos por mês, com cada um. O aluno, com 10 anos, tem um professor apenas para lhe escutar. Tutor é alguém que faria a ponte entre a vida dessa criança, desse jovem, com o sistema educacional. Isso não apenas ajudaria o aluno a crescer na sua trajetória, mas ajudaria a escola a crescer. Porque ele vai ensinar à escola como ela deve ser. Se eu quero atender aos alunos, ouvi-los me dá a trajetória que eu tenho que seguir. Mas no lugar disso, a gente elege um teórico. Vamos seguir o Piaget, vamos seguir o Vygotsky, vamos seguir o construtivismo… hoje em dia está até menor, mas não é isso.

OP – Como as educações familiar e escolar se encaixam?

VIVIANE – Infelizmente, não se encaixam, a gente não tem mais educação familiar, nem escolar. A educação familiar era feita pela mãe, que saiu para trabalhar, e saiu com razão. A educação era feita pela igreja, mas que também não tem mais essa potência. Os pais não estão em casa, e, quando estão, é no celular, na rede social. Formação moral é muito difícil de ser feita na escola. Sabe como você educa seus filhos? Estando com eles. Não tem fórmula. Esteja presente com seus filhos, aí você vai dizer o que aprendeu com o seus pais, ele vai dizer que não é aquilo, que o mundo mudou. Vocês terão um debate, um papo de pai e filho. Ninguém está cuidado e se preocupando com as crianças, por isso a gente está vivendo essa violência terrível. As crianças ficam o dia inteiro no computador. Eu vejo, no futuro, as empresa diminuindo os horários de trabalho dos funcionários para que eles fiquem em casa com seus filhos. Por necessidade, pra diminui os índices de terrorismo, suicídio e violência. Num futuro próximo.

OP – Você disse que valoriza os índices educacionais e as escolas cearenses têm alcançado bons resultados. Como mostrar que isso não é o principal?

VIVIANE – Mas, é o principal. A gente tem muito preconceito com índice, a gente odeia ser avaliado. O índice é fundamental, mas depende do índice. Se é um Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) ou um Enem (bem feito), esse índice necessariamente vai dar uma boa educação. Porque o que o Enem avalia, por exemplo, não é o que você sabe, mas o que você faz com o que sabe. Então, se eu estou interessada em um resultado no Enem, eu tenho que dar a você uma educação critica e inteligente. Esse é o verdadeiro Enem, que tem sido modificado para virar uma manipulação como todos os outros índices. Mas, o Pisa, que é o pai de todos os índices, analisa a capacidade intelectual do aluno. Porque estamos tão mal no Pisa? Porque a gente insiste no lado errado. A gente quer ter uma boa nota no Pisa e começa a dar conteúdo mandando os meninos decorar.

OP – Mas a maioria dos índices nacionais não são como o Pisa…

VIVIANE – Deveriam ser. E isso é um problema da imprensa, que não entende os índices. O Enem, por exemplo, é altamente difícil e nenhuma resposta é necessariamente certa ou errada. Cada resposta diz quem você é e a somatória delas mostra o modelo de raciocínio que você usa. Se é algo rasteiro, complexo… mas, aí a imprensa pega uma redação e diz que porque ela não tem começo e nem fim e tirou uma nota boa, isso é um absurdo. Ela pode ser resultado de um raciocínio altamente elaborado. O Enem passou a ser mal visto pela incapacidade da nossa imprensa de entendê-lo. Os cursinhos vestibulares estão prontos para ensinar os alunos a decorar, mas não é possível ensinar o aluno a pensar em apenas um ano. Aí houve uma briga entre os cursinhos para destruir o Enem. E eles conseguiram.OP – Por favor, comenta a frase do ex-reitor da Universidade de Havard, Derek Bok: “Se você acha que a educação é cara, experimente a ignorância”?

VIVIANE – A ignorância, que é a falta de conteúdo, destrói relações familiares, as relações numa cidade, impede qualquer tipo de convivência. Ética é conhecimento. Ética não é produto da bondade. Não sou boa quando trato os outros bem, eu sou inteligente. Quando eu não jogo lixo no chão, eu sou esperta. A gente quer lutar por uma sociedade inteligente, não por uma sociedade que decorou o que está no livro.

Fonte: Jornal o Povo. 13/03/2017 (Link)