Sikong Tu (司空图) e uma tentativa de tradução para o português

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RESUMO

Sikong Tu (司空图) é reconhecido como um importante poeta e crítico literário chinês da dinastia T´ang (século IX). Até hoje, sua obra mais importante, os Vinte e quatro estados, em poesia (二十四诗品) não está traduzida para o português. Trabalhando nisto há quatorze anos, proponho uma versão do trabalho, a ser exposta, virtualmente, a critério de coordenações, com o resultado de meus últimos esforços para traduzi-lo. 

RESUMOSikong Tu (司空图) é reconhecido como um importante poeta e crítico literário chinês da dinastia T´ang (século IX). Até hoje, sua obra mais importante, os Vinte e quatro estados, em poesia (二十四诗品) não está traduzida para o português. Trabalhando nisto há quatorze anos, proponho uma versão do trabalho, a ser exposta, virtualmente, a critério de coordenações, com o resultado de meus últimos esforços para traduzi-lo. 

BIBLIOGRAFIA: 

CAMPOS, H. de. Ideograma. São Paulo : Edusp, 2000.

FRIEDRICH, H. Estrutura da Lírica Moderna. São Paulo : Duas Cidades, 1978.

GILES, H. G. A History of Chinese Literature. Tokyo : Tuttle, 1982.

JUNG, C. G. O Segredo da Flor de Ouro.Disponível em: https://clinicapsique.com/wp-content/textos/C.%20G.%20Jung%20&%20R.%20Wilhelm%20-%20O%20Segredo%20da%20Flor%20de%20Ouro.pdf. Acesso em: 19/04/2021.

LIU, J. Chinese theories of Literature. Chicago University Press, 1975.

______. The Art of Chinese Poetry. Chicago University Press, 1963.

MICHAUD, G. La Doctrine Symboliste. Paris : Nizet, 1947.

SIKONG TU. 二十四诗品. Disponível em: https://baike.baidu.com/item/%E4%BA%8C%E5%8D%81%E5%9B%9B%E8%AF%97%E5%93%81. Acesso em: 19/04/2021.

Sikong Tu nasceu em 834 e faleceu em 908. Foi um funcionário da corte no final da dinastia T´ang (618-906), e sua vida rendeu muitas lendas. Como escritor, deixou poucas mas importantes obras de literatura e crítica literária. Em livros da década de 1960, James Liu comparou sua poesia com o Simbolismo europeu e americano do final do século XIX, o que se confirma muito lendo La doctrine symboliste, de Guy Michaud (1947).

A poesia como meio de transmissão de ensinamentos herméticos, tal era o conceito compartilhado por chineses e simbolistas. Uma obra que poderia, ainda mais, esclarecer este parentesco é Estrutura da Lírica Moderna, de Hugo Friedrich, principalmente por sua abordagem da “idealidade vazia” em Mallarmé.

No caso de Sikong Tu, sua poesia é impregnada do budismo e do taoismo, que, hoje, grafamos “daoismo”. Por isso, talvez, Herbert Giles a tenha considerado “excessivamente difícil de se entender” GILES, 1982, p. 179), embora o seu trabalho de tradução seja muito bom.

A leitura de O segredo da flor de ouro, texto divulgado por Jung e por Richard Wilhelm, fornece chaves preciosas para a compreensão de Sikong Tu, pois é um texto destinado a discípulos que praticavam o sincretismo budista/taoista/confuciano que caracteriza, exteriormente, a China, para nós.

Portanto, com base neste texto, propomos uma tradução do primeiro poema.

Cada caráter chinês, que chamamos “ideogramas”, ou “logogramas”, corresponde, via de regra, a uma ideia ou conceito, em português. Portanto, o que segue é a tradução de cada caráter do poema que intitulamos “poder total”. Os versos de Sikong Tu são tetrassílabos, e arranjam-se como dísticos. Alguns termos, como “dez mil” e “o máximo” tiveram de ser grafados entre parênteses, para transmitir a unidade de sentido.

PODER TOTAL

GRANDE USO FORA DOENÇA,

VERDADEIRO CORPO DENTRO ENCHER.

CONTRA VAZIO ENTRAR VASTO,

ACUMULAR VIGOR CONSIDERAR FORÇA.

TER GUARDAR (DEZ MIL) COISAS,

ATRAVESSAR QUEBRAR (O MÁXIMO) VAZIO.

PERDER PERDER AMÁVEL NUVEM,

PROFUNDO PROFUNDO DURÁVEL SENTIMENTO.

PULAR RAZÃO APARÊNCIA ALÉM,

POSSUIR TALVEZ JADE CENTRO.

PEGAR ESTE RICO FORÇA,

FUTURO ESTE NÃO FIM.

O poema original, na visão de Haroldo de Campos, poderia revelar as “rimas visuais”, que são as repetições, intencionais, ou não, de caracteres ou de “radicais”, o que pode ser notado:

雄浑

大用外腓,真体内充。

反虚入浑,积健为雄。

具备万物,横绝太空。

荒荒油云,寥寥长风。

超以象外,得其环中。

持之匪强,来之无穷。

Quanto à pronúncia, procuramos dar a sua versão em “pinyin”, que é o sistema mais usado, atualmente, para a transcrição da língua chinesa:

Tà yòng wài féi, zhen ti néi chong.

Fan xu rù hún, ji jian wéi xióng.

Jù béi wàn wú, héng jué tài kong.

Huang huang yóu yún, liáo liáo cháng feng.

Chao yi xiáng wái, dé qí huán zhong.

Chí zhi fei qiáng, lái zhi wú qióng. 

Como se vê, o poema pode ser traduzido de muitas maneiras, em português, e isso por conta da sintaxe da língua chinesa, que permite muitas combinações, em nosso idioma, de preposições e de conectivos, em geral, para dar ao poema um sentido compreensível. A nossa escolha recaiu sobre esta versão:

poder total

Usar muito o corpo o adoece, pois ele está cheio de um Verdadeiro corpo…

Neste vácuo, vasto, tudo se acumula, forte e vigoroso,

ali, no vazio de Si…

Fumaça que se perde no horizonte… Amor Inigualável…

Muito Além das Aparências: o Centro, o precioso:

Centro, de toda Força, Centro, que não morre, jamais…

O princípio central, de acordo com as leituras, é de que os corpos estão vazios, na percepção do meditador. O poder se acumula no “verdadeiro corpo”, no corpo imaterial e não egoico. Imagens como “fumaça que se perde no horizonte”, e palavras como “Centro”, são tentativas de exprimir o inexprimível. O uso abundante de maiúsculas, em nossa tradução, procura atentar para a semelhança entre as poéticas “metafísica” chinesa e simbolista.

Sendo assim, a tradução de Sikong Tu é útil tanto para estudantes de línguas e de literaturas, quanto para praticantes de artes meditativas. Esperamos, um dia, apresentar uma tradução dos vinte e quatro estados, e ver como os poemas poderiam ser traduzidos por outras pessoas.

Autora: Paulo de Taso Cabini Jr. (Ana Katyna Cabrini)
Doutora em Letas pela Unesp/Assis