De como uma paixão virou objeto de pesquisa

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A fotografia me acompanha desde a infância. Eu ainda era criança quando meu pai comprou uma câmera de fole, que não me lembro a marca, mas me recordo que ela duplicava o número de poses dos filmes.   E com a curiosidade típica das crianças, aquele objeto mágico despertou minha atenção. Já adolescente, ganhei uma câmera Kodak compacta que foi companheira de aventuras e viagens por um bom tempo. Depois veio uma Olympus Trip, que também ocupou o posto de aventureira comigo.

Quando ingressei na faculdade de jornalismo, já familiarizada com o universo fotográfico, tive a felicidade de cursar as disciplinas Fotografia e Fotojornalismo. Foi nesse ambiente que pude conhecer mais a fundo a parte técnica da prática fotográfica, como a operação das câmeras profissionais e a revelação de filmes preto e branco no laboratório. O tempo passou. Já depois de formada, comprei a primeira câmera profissional, ainda analógica, uma Nikon F70. O ano era 2000 e o digital já surgia como nova possibilidade de trabalho, mas enfrentava desconfianças que seriam logo dissipadas. Em 2003, comprei minha primeira digital, uma Nikon D100, que foi substituída por uma D200, que ainda hoje me acompanha, juntamente com a F70 e a caçula da turma, uma Nikon Z50, com tecnologia mirrorless. Em minha vida profissional como jornalista, a fotografia sempre me acompanhou e seguiu assim na vida de pesquisadora.

No início de minha vida acadêmica, na especialização lato sensu, meu interesse já estava voltado para o fotojornalismo, bem como no mestrado. Em 2011, já no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), o objeto de pesquisa do mestrado foi o fotojornalismo, com a comparação entre as coberturas fotográficas realizadas por jornais brasileiros – dos terremotos no Haiti (2010) e no Japão (2011). Um trabalho intenso e gratificante, na mesma proporção do volume de análises realizadas em 100 capas de jornais.

Quando chegou o momento de pensar num possível doutorado, a escolha para o projeto de pesquisa foi o trabalho de Sebastião Salgado. O ano era 2014 e o fotógrafo veio ao Brasil para realizar exposições do projeto Gênesis. Era, então, a primeira vez que Salgado fotografava a natureza, e não mais somente o homem, sem abandonar uma marca registrada de seu trabalho: o uso exclusivo do preto e branco. Os objetos escolhidos foram os fotolivros Êxodos e Gênesis, que têm capítulos dedicados ao registro do continente africano, que tem profundas relações históricas e imaginárias com Brasil. E é a comparação entre a representação da África nesses dois fotolivros a pesquisa que estou finalizando no Programa de Estudos de Linguagens (Posling) do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG). O continente africano é abordado em dois momentos e sob duas perspectivas, o que pode resultar na construção de imaginários igualmente distintos sobre a África. Com alegria, apresentarei, em breve, os resultados dessa pesquisa, que reúne, para mim, a felicidade de trabalhar com uma linguagem que me fascina e que ocupa cada vez mais espaços em nossas sociedades e o trabalho de um fotógrafo brasileiro, cujas imagens viajam o mundo, apresentando o olhar particular de Salgado sobre os lugares que ele visita.

Referências

SALGADO, Sebastião. Êxodos. 2 ed. Taschen, 2016.

SALGADO, Sebastião. FRANCQ, Isabelle. Da minha terra à terra. Tradução: Júlia da Rosa Simões. 1 ed. São Paulo: Paralela, 2014.

SALGADO, Sebastião. Gênesis. Taschen, 2013

Autor: Eliziane Cristina da Silva de Oliveira
Doutoranda em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG, fotógrafa e professora